sábado, 27 de setembro de 2014

Inimigos


A chuva limpava o sangue da armadura enquanto caia pesada nas costas do guerreiro ajoelhado. “Falta pouco”, pensava. Gotas pesadas estrepitavam na brilhante armadura completa. De joelhos em uma poça, músculos latejantes, mas espírito inabalado. O sangue, parte seu e parte de outro, coloria a água. Ele inspirou forças. Apoiou um braço no joelho para tomar impulso. 

– Por Khalmyr. – Rosnou baixo para si mesmo. 

Finalmente conseguiu ficar em pé, ainda que cambaleante. 

– Você sabe que se precisar eu vou te seguir até o fim dos tempos! – Diz o outro. 

O segundo homem estava deitado na lama, seu corpo ainda mais ferido e com um dos olhos inchados, mas havia algo curioso, mesmo que o rosto estivesse deformado pelo ferimento, até a mais simples visão poderia notar: o segundo era exatamente igual ao primeiro. A armadura do outro era uma versão nefasta, odiosa e corrompida do primeiro guerreiro, mas o rosto, ainda que igual, carregava uma expressão terrível, olhos profundos, injetados e raivosos. Era um demônio, uma cópia demoníaca, criado e treinado por um ser nefasto com o objetivo específico de antagonizar o primeiro. 

– Da minha parte, pretendo te derrotar quantas vezes for preciso. Tenho Khalmyr e a justiça não falha.

– Silêncio! A justiça é uma ilusão! – O antipaladino começa a se erguer lentamente. – Provarei quando tirar a sua vida!

O inimigo ergue-se por completo. Armadura negra tilintando. O paladino de Khalmyr se volta para o terrível inimigo sem acreditar na força da vontade existente no demônio. Dando as costas, o paladino dispara em uma corrida tonta e frenética. 

– Fugindo de um inimigo? Covarde! – Berra o paladino das trevas. 

– Te matar não fará diferença mesmo, eu continuarei vivo, para que você sofra a dor da carne, essa é sua punição. Isso é a justiça. 

O paladino em parte diz a verdade, mas ao mesmo tempo blefava, ele conhecia a força de vontade do oponente, sabia que aquele demônio não pararia de persegui-lo nunca, ainda assim partiu em fuga. “Falta pouco”, pensava. Foi quando ouvira os passos. Olhou para trás e ficou surpreso: o antipaladino corria logo atrás dele, espada em riste. “Falta pouco”, dizia para si. Até que finalmente avistou as muralhas e o portão negro. 

O paladino pede forças a Khalmyr para que corresse mais, ele sugou todas as energias do próprio corpo, até que finalmente alcançou os portões. O inimigo das trevas surge logo em seguida com olhos de fúria. 

– Eu vou te matar! – Disse o antipaladino, respirando pesadamente. 

– Você vai morrer também se fizer isso. 

– Eu sei! Se for para isso que eu existo, eu não me importo! 

O paladino suspirou, sabia que razão não seria útil contra aquele ser, pois herdara até a sua força de vontade, ainda que até mesmo isso fosse uma versão corrompida. Seu lado mal disparou em sua direção, a espada rasgando o chão atrás de si. O primeiro golpe foi disparado pelo impetuoso inimigo, o paladino bloqueou com a espada fazendo o metal espirrar faíscas, sua manobra defensiva abriu a guarda inimiga o suficiente para que pudesse esticar a mão e agarrar o que seria o colarinho da armadura negra. Girando, segurando o antipaladino pela gola e usando o próprio corpo como uma alavanca, o paladino arremessou poderosamente o rival contra os portões negros que se escancararam com o impacto esmagador. O antipaladino rola pesadamente para dentro das muralhas. Não havia guardas nos muros daquela cidade. 

Enquanto o inimigo se recuperava do impacto, o paladino segurou sua espada com as duas mãos diante de si e começou a rezar para Khalmyr. Sua espada começou a ganhar um brilho que logo se transformou em uma chama azul transbordando poder, ele posiciona uma perna à frente e usa todo o peso do corpo como impulso para arremessar a espada que corta o ar em um raio azul, trespassando o Antipaladino. O demônio sentiu o impacto, e mesmo com seus órgãos em agitação borbulhante, com a dor lacerando na carne, o sangue jorrando em profusão pela boca e pela ferida; ele riu. 

– Sabe que vou voltar. 

– Mas não do jeito que pretende. 

E dessa vez quem riu foi o paladino. 

– Você deveria ler melhor as placas. 

O antipaladino olhou para cima e sentiu um frio final acompanhando o último jorro de ódio daquela pseudovida. Os portões começam a fechar enquanto o antipaladino tinha como última visão o riso do seu arquirrival. 

Em uma grafia diferente e estilizada, no alto dos portões, presa a correntes e uma placa de madeira, estava escrito... 

...Triumphus, a cidade perpétua onde, todos que revivem, lá permanecem, pela eternidade.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Pescador e o Vilarejo

No meio do rio, havia um pequeno barco de pescador ancorado. Deitado nele de maneira transversal, havia um homem simples com os dedos entrelaçados na nuca e um chapéu cobrindo o rosto. Com as costas encostadas em uma borda e os pés pendurados na outra,Wentias aguardava pacientemente a fisgada enquanto pensava nas nuances dessa pacata vida que vivia. Ele se lembrava quando, no inicio, ele saltava dentro da água furioso após passar a tarde sem conseguir pegar nada, desafiava os peixes para batalhas mortais chamando-os de covardes. Imediatamente, sua imaginação fez surgir um guerreiro ao lado dele; era o próprio pescador, mas agora trajava uma armadura brilhante, tinha uma espada e segurava o capacete sobre o braço. 

– Você está fraco e está ficando gordo.– Diz o Wentias guerreiro. 

Provavelmente Emael estava certo quando dizia que o pescador estava ficando velho e logo começaria a ficar ranzinza, afinal, seus cabelos cinza estavam lá, um pouco mais compridos que o de costume, a barba um pouco maior do que o “por fazer”, ele ainda era forte, suas costas não haviam se curvado, mas todo aquele tempo deitado esperando os peixes decidirem morder a isca estavam favorecendo alguns problemas na lombar.

– Até os peixes estão ficando mais espertos que você. – Continua o Wentias guerreiro, agora com uma careta de desprezo. 

Imediatamente, a imaginação do pescador fez um peixe saltar da água, o peixe tinha o rosto de Wentias. Ele deu uma gargalhada enquanto se debatia no ar e então voltou a cair no rio. “Ranzinza? Até pode ser”. Wentias fechou a cara e deu uma bufada com esse pensamento. “Mas ranzinza como Emael jamais”.

– Pegou alguma coisa?!– Grita alguém da margem.

“Falando no demônio”, pensa Wentias.

– Não! Você acabou de espantar todos, Emael! Obrigado!

– O que?!

“Velho surdo” pensa Wentias. O tempo não havia sido tão bom assim com Emael, pois a barriga dele inchara mais que a de Wentias, que com roupas mais soltas, já poderia ser facilmente escondida. Como Emael preferia dizer: não estava ficando careca, sua testa que crescera um pouco mais. “Quase até a nuca”, acrescentava Wentias nesses momentos oportunos, Emael tentava remediar deixando as laterais brancas bem mais ralas para não destacar a “testa enorme”. Funcionava, um pouco.

Wentias começou a remar para margem. Não é que eles não se gostassem, simplesmente estavam juntos há muito tempo, eram amigos há tantas temporadas que é impossível contar a quantidade exata. Nos tempos áureos, ambos eram aventureiros poderosos, eram respeitados, talvez nem tanto quanto gostariam, mas ainda assim, eles foram habilidosos, Wentias Bevar com sua espada reluzente e Emael Lysiumn com sua mágica vivaz. Hoje, Wentias é um mero pescador e Emael é dono de uma pequena e quase sempre vazia taverna chamada Taverna Azul. A história da Taverna Azul seria engraçada se não fosse trágica, pois Emael pintou de azul o que seria sua “Grande Escola de Magia do Emael”, mas que hoje não passa da “Pequena Taverna Azul do Velho Barrigudo Manco, Podre de Bêbado Sobre Uma Mesa Há Três Dias, Erguendo-Se Apenas Para Espantar os Peixes Alheios”.

– Sem peixes hoje?– Pergunta Emael vendo seu amigo amarrar o pequeno barco.

– Infelizmente, nós prevíamos isso, não estamos em temporada.– Mente Wentias em uma tentativa frustrada de fazer Emael parar de incomodar.

– Eu preciso de peixes, Wen. Meus clientes comem isso, sabia?– Diz Emael emburrado.

Louco de vontade de perguntar se eram os seus clientes imaginários ou os do futuro, Wentias rebateu de maneira mais amena.

– Eu sei, eu também preciso. Mas tenha paciência que as coisas vão dar certo.

– Quando você me dizia isso antigamente, eu acabava com uma lâmina cravada em mim.

– Se você está vivo até hoje é por que as coisas deram certo. Não deram?

– Se você chama o fato de ter uma lança atravessada na sua nádega “algo que deu certo”.

– Droga, você não vai esquecer isso nunca!

– Eu manco até hoje!

A pequena discussão se estendeu, como sempre, durante todo o caminho de volta. Já estavam rindo enquanto se aproximavam do Vilarejo da Planície Greenboot. O lugar é extremamente tranquilo, um local de pescadores e com alguns pequenos fazendeiros em torno de um grande casarão onde vivia o Baronete de Greenboot, Senhor Robersen, homem a quem os aldeões pagavam pequenos tributos. Apesar de ser mais imponente, era apenas mais um velho tão tranquilo e normal quanto o resto dos aldeões, sem todos aqueles delírios de nobreza típicos dos homens ricos das grandes cidades, a ponto de sair com os fazendeiros e os pescadores para beber de vez em quando.

O lado leste do vilarejo é fechado para o resto do mundo por uma cordilheira, as Montanhas Lupinas, que seguem até o extremo norte da Planície Greenboot. Também ao leste do vilarejo, a única passagem para o outro lado é um vale entre as montanhas, o Vale Canino Cinzento e sua saída fica ligada as rotas para as grandes cidades do estado. Na entrada da Planície Greenboot, no início do Vale Canino Cinzento, existe uma torre de vigília e uma grande paliçada, espécie de cerca de madeira afiada que cruza a saída do vale deixando apenas um pequeno espaço aberto. O único posto de vigília do vilarejo, a Torre Leste, foi construída lá devido aos lobos que dão nome ao lugar, porém, eles são raros e não demonstram perigo há tempos, quando aparecem, os homens da milícia tentam não incomodá-los, pois, sendo território dos lobos, eles acabam, sem saber, ajudando a defender o vilarejo, mas claro que, para casos de emergência, eles sempre têm um pouco de veneno para colocar em pedaços de carne.

O lado oeste é tomado pela Floresta Perttet, através dela, cruza o Riacho do Peixe Gordo, onde Wentias e os outros pescadores vão pescar, a correnteza segue do norte para o sul, na parte norte do riacho, a noroeste do vilarejo, a floresta é muito mais densa, enquanto a parte sul do riacho, a sudoeste do vilarejo, é formada por várias clareiras. Wentias pesca sozinho na parte norte, pois os outros pescadores temem a parte densa da floresta. Ainda que Wentias já os tenha dito que o lugar é seguro, esse medo é causado pelo restante da floresta, o que existe na outra margem do riacho, pois não são raros os relatos de avistamento de vultos que se movem rapidamente na outra margem, local que, por sinal, nem Wentias tem coragem de botar os pés.