Inimigos
A chuva limpava o sangue da armadura enquanto caia pesada nas costas do guerreiro ajoelhado. “Falta pouco”, pensava. Gotas pesadas estrepitavam na brilhante armadura completa. De joelhos em uma poça, músculos latejantes, mas espírito inabalado. O sangue, parte seu e parte de outro, coloria a água. Ele inspirou forças. Apoiou um braço no joelho para tomar impulso.
– Por Khalmyr. – Rosnou baixo para si mesmo.
Finalmente conseguiu ficar em pé, ainda que cambaleante.
– Você sabe que se precisar eu vou te seguir até o fim dos tempos! – Diz o outro.
O segundo homem estava deitado na lama, seu corpo ainda mais ferido e com um dos olhos inchados, mas havia algo curioso, mesmo que o rosto estivesse deformado pelo ferimento, até a mais simples visão poderia notar: o segundo era exatamente igual ao primeiro. A armadura do outro era uma versão nefasta, odiosa e corrompida do primeiro guerreiro, mas o rosto, ainda que igual, carregava uma expressão terrível, olhos profundos, injetados e raivosos. Era um demônio, uma cópia demoníaca, criado e treinado por um ser nefasto com o objetivo específico de antagonizar o primeiro.
– Da minha parte, pretendo te derrotar quantas vezes for preciso. Tenho Khalmyr e a justiça não falha.
– Silêncio! A justiça é uma ilusão! – O antipaladino começa a se erguer lentamente. – Provarei quando tirar a sua vida!
O inimigo ergue-se por completo. Armadura negra tilintando. O paladino de Khalmyr se volta para o terrível inimigo sem acreditar na força da vontade existente no demônio. Dando as costas, o paladino dispara em uma corrida tonta e frenética.
– Fugindo de um inimigo? Covarde! – Berra o paladino das trevas.
– Te matar não fará diferença mesmo, eu continuarei vivo, para que você sofra a dor da carne, essa é sua punição. Isso é a justiça.
O paladino em parte diz a verdade, mas ao mesmo tempo blefava, ele conhecia a força de vontade do oponente, sabia que aquele demônio não pararia de persegui-lo nunca, ainda assim partiu em fuga. “Falta pouco”, pensava. Foi quando ouvira os passos. Olhou para trás e ficou surpreso: o antipaladino corria logo atrás dele, espada em riste. “Falta pouco”, dizia para si. Até que finalmente avistou as muralhas e o portão negro.
O paladino pede forças a Khalmyr para que corresse mais, ele sugou todas as energias do próprio corpo, até que finalmente alcançou os portões. O inimigo das trevas surge logo em seguida com olhos de fúria.
– Eu vou te matar! – Disse o antipaladino, respirando pesadamente.
– Você vai morrer também se fizer isso.
– Eu sei! Se for para isso que eu existo, eu não me importo!
O paladino suspirou, sabia que razão não seria útil contra aquele ser, pois herdara até a sua força de vontade, ainda que até mesmo isso fosse uma versão corrompida. Seu lado mal disparou em sua direção, a espada rasgando o chão atrás de si. O primeiro golpe foi disparado pelo impetuoso inimigo, o paladino bloqueou com a espada fazendo o metal espirrar faíscas, sua manobra defensiva abriu a guarda inimiga o suficiente para que pudesse esticar a mão e agarrar o que seria o colarinho da armadura negra. Girando, segurando o antipaladino pela gola e usando o próprio corpo como uma alavanca, o paladino arremessou poderosamente o rival contra os portões negros que se escancararam com o impacto esmagador. O antipaladino rola pesadamente para dentro das muralhas. Não havia guardas nos muros daquela cidade.
Enquanto o inimigo se recuperava do impacto, o paladino segurou sua espada com as duas mãos diante de si e começou a rezar para Khalmyr. Sua espada começou a ganhar um brilho que logo se transformou em uma chama azul transbordando poder, ele posiciona uma perna à frente e usa todo o peso do corpo como impulso para arremessar a espada que corta o ar em um raio azul, trespassando o Antipaladino. O demônio sentiu o impacto, e mesmo com seus órgãos em agitação borbulhante, com a dor lacerando na carne, o sangue jorrando em profusão pela boca e pela ferida; ele riu.
– Sabe que vou voltar.
– Mas não do jeito que pretende.
E dessa vez quem riu foi o paladino.
– Você deveria ler melhor as placas.
O antipaladino olhou para cima e sentiu um frio final acompanhando o último jorro de ódio daquela pseudovida. Os portões começam a fechar enquanto o antipaladino tinha como última visão o riso do seu arquirrival.
Em uma grafia diferente e estilizada, no alto dos portões, presa a correntes e uma placa de madeira, estava escrito...
...Triumphus, a cidade perpétua onde, todos que revivem, lá permanecem, pela eternidade.
Excelente! Essa cidade deve ser alguma virtude ao gosto do leitor! Ficou ótimo mesmo! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado ^^
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