sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Pescador e o Vilarejo

No meio do rio, havia um pequeno barco de pescador ancorado. Deitado nele de maneira transversal, havia um homem simples com os dedos entrelaçados na nuca e um chapéu cobrindo o rosto. Com as costas encostadas em uma borda e os pés pendurados na outra,Wentias aguardava pacientemente a fisgada enquanto pensava nas nuances dessa pacata vida que vivia. Ele se lembrava quando, no inicio, ele saltava dentro da água furioso após passar a tarde sem conseguir pegar nada, desafiava os peixes para batalhas mortais chamando-os de covardes. Imediatamente, sua imaginação fez surgir um guerreiro ao lado dele; era o próprio pescador, mas agora trajava uma armadura brilhante, tinha uma espada e segurava o capacete sobre o braço. 

– Você está fraco e está ficando gordo.– Diz o Wentias guerreiro. 

Provavelmente Emael estava certo quando dizia que o pescador estava ficando velho e logo começaria a ficar ranzinza, afinal, seus cabelos cinza estavam lá, um pouco mais compridos que o de costume, a barba um pouco maior do que o “por fazer”, ele ainda era forte, suas costas não haviam se curvado, mas todo aquele tempo deitado esperando os peixes decidirem morder a isca estavam favorecendo alguns problemas na lombar.

– Até os peixes estão ficando mais espertos que você. – Continua o Wentias guerreiro, agora com uma careta de desprezo. 

Imediatamente, a imaginação do pescador fez um peixe saltar da água, o peixe tinha o rosto de Wentias. Ele deu uma gargalhada enquanto se debatia no ar e então voltou a cair no rio. “Ranzinza? Até pode ser”. Wentias fechou a cara e deu uma bufada com esse pensamento. “Mas ranzinza como Emael jamais”.

– Pegou alguma coisa?!– Grita alguém da margem.

“Falando no demônio”, pensa Wentias.

– Não! Você acabou de espantar todos, Emael! Obrigado!

– O que?!

“Velho surdo” pensa Wentias. O tempo não havia sido tão bom assim com Emael, pois a barriga dele inchara mais que a de Wentias, que com roupas mais soltas, já poderia ser facilmente escondida. Como Emael preferia dizer: não estava ficando careca, sua testa que crescera um pouco mais. “Quase até a nuca”, acrescentava Wentias nesses momentos oportunos, Emael tentava remediar deixando as laterais brancas bem mais ralas para não destacar a “testa enorme”. Funcionava, um pouco.

Wentias começou a remar para margem. Não é que eles não se gostassem, simplesmente estavam juntos há muito tempo, eram amigos há tantas temporadas que é impossível contar a quantidade exata. Nos tempos áureos, ambos eram aventureiros poderosos, eram respeitados, talvez nem tanto quanto gostariam, mas ainda assim, eles foram habilidosos, Wentias Bevar com sua espada reluzente e Emael Lysiumn com sua mágica vivaz. Hoje, Wentias é um mero pescador e Emael é dono de uma pequena e quase sempre vazia taverna chamada Taverna Azul. A história da Taverna Azul seria engraçada se não fosse trágica, pois Emael pintou de azul o que seria sua “Grande Escola de Magia do Emael”, mas que hoje não passa da “Pequena Taverna Azul do Velho Barrigudo Manco, Podre de Bêbado Sobre Uma Mesa Há Três Dias, Erguendo-Se Apenas Para Espantar os Peixes Alheios”.

– Sem peixes hoje?– Pergunta Emael vendo seu amigo amarrar o pequeno barco.

– Infelizmente, nós prevíamos isso, não estamos em temporada.– Mente Wentias em uma tentativa frustrada de fazer Emael parar de incomodar.

– Eu preciso de peixes, Wen. Meus clientes comem isso, sabia?– Diz Emael emburrado.

Louco de vontade de perguntar se eram os seus clientes imaginários ou os do futuro, Wentias rebateu de maneira mais amena.

– Eu sei, eu também preciso. Mas tenha paciência que as coisas vão dar certo.

– Quando você me dizia isso antigamente, eu acabava com uma lâmina cravada em mim.

– Se você está vivo até hoje é por que as coisas deram certo. Não deram?

– Se você chama o fato de ter uma lança atravessada na sua nádega “algo que deu certo”.

– Droga, você não vai esquecer isso nunca!

– Eu manco até hoje!

A pequena discussão se estendeu, como sempre, durante todo o caminho de volta. Já estavam rindo enquanto se aproximavam do Vilarejo da Planície Greenboot. O lugar é extremamente tranquilo, um local de pescadores e com alguns pequenos fazendeiros em torno de um grande casarão onde vivia o Baronete de Greenboot, Senhor Robersen, homem a quem os aldeões pagavam pequenos tributos. Apesar de ser mais imponente, era apenas mais um velho tão tranquilo e normal quanto o resto dos aldeões, sem todos aqueles delírios de nobreza típicos dos homens ricos das grandes cidades, a ponto de sair com os fazendeiros e os pescadores para beber de vez em quando.

O lado leste do vilarejo é fechado para o resto do mundo por uma cordilheira, as Montanhas Lupinas, que seguem até o extremo norte da Planície Greenboot. Também ao leste do vilarejo, a única passagem para o outro lado é um vale entre as montanhas, o Vale Canino Cinzento e sua saída fica ligada as rotas para as grandes cidades do estado. Na entrada da Planície Greenboot, no início do Vale Canino Cinzento, existe uma torre de vigília e uma grande paliçada, espécie de cerca de madeira afiada que cruza a saída do vale deixando apenas um pequeno espaço aberto. O único posto de vigília do vilarejo, a Torre Leste, foi construída lá devido aos lobos que dão nome ao lugar, porém, eles são raros e não demonstram perigo há tempos, quando aparecem, os homens da milícia tentam não incomodá-los, pois, sendo território dos lobos, eles acabam, sem saber, ajudando a defender o vilarejo, mas claro que, para casos de emergência, eles sempre têm um pouco de veneno para colocar em pedaços de carne.

O lado oeste é tomado pela Floresta Perttet, através dela, cruza o Riacho do Peixe Gordo, onde Wentias e os outros pescadores vão pescar, a correnteza segue do norte para o sul, na parte norte do riacho, a noroeste do vilarejo, a floresta é muito mais densa, enquanto a parte sul do riacho, a sudoeste do vilarejo, é formada por várias clareiras. Wentias pesca sozinho na parte norte, pois os outros pescadores temem a parte densa da floresta. Ainda que Wentias já os tenha dito que o lugar é seguro, esse medo é causado pelo restante da floresta, o que existe na outra margem do riacho, pois não são raros os relatos de avistamento de vultos que se movem rapidamente na outra margem, local que, por sinal, nem Wentias tem coragem de botar os pés.


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